De acordo com Habermas apud Raichelis (2008), uma esfera burguesa seria responsável por estabelecer uma relação entre sociedade civil e o estado no século XVIII, pois devido à circulação econômica surge a necessidade de novos espaços de participação existirem, pois com o tempo a liberdade descrita por Arend (1991) apud Raichelis (2008), tal liberdade somente considerada quando determinada pessoa ser tinha o direito de participar da política, essa liberdade com o tempo necessita de algo mediador. (Raichelis, 2008)
Não é de qualquer liberdade que estamos falando, e sim, de uma tal maneira que possibilite e tenha “legitimidade na sociedade civil” (Raichelis, 2008), isso marca um componente da tão chamada “teoria política moderna” (Raichelis, 2008). De acordo com Raichelis (2008), essa teoria perpassa por 3 grandes fases, na 1ª, é onde se forma tal esfera, onde proprietários possuem algo e pensavam somente nos seus
interesses pessoais passam a ter preocupação com interesse coletivo. (Raichelis, 2008)
Se no século XVIII a burguesia tinha uma política forte e autoritária uma contradição se perspicaz, pois para ir passos contra tal governo o primeiro caminho era buscar a participação popular, agora temos que nos perguntar o que elaboraria tais argumentos ou discussão? O que ligaria o povo sem voz ativa ao estado? Sendo assim, há necessidade de algo intermediador que de acordo com Raichelis, na política moderna isso é chamada por diferentes autores de publicização. (Raichelis, 2008). A publicização serve de intermediador garantindo alguns direitos como “opinião de expressão, de imprensa, associação” (Raichelis, 2008 p. 52). Recorrendo a Habermas a autora Raichelis enfatiza sobre uma 2ª fase que se caracteriza pela ampliação de direitos (Raichelis, 2008), considerando que as políticas públicas vem de cima, e a população é multicultural e tem suas demandas, levando a crer que é necessário algo que faça intermediação entre sociedade civil e estado, pensando o caso do Brasil, sabe-se que nos anos 80 teve a crise do poder autoritário do regime militar, ou seja, um período marcado por crises, miséria mas também mudanças, de acordo com Raichelis (2000), esse foi o período em que mais se desenvolveu a preocupação com a democratização no Brasil, pois foi nos anos 80 e em 1988 que a constituição federal implanta os conselhos. (Raichelis, 2000, p. 5).
De acordo com Raichelis, os conselhos mostram hoje a demanda de diferentes tipos de participação, pois há conselhos “em curso nas áreas da saúde, criança e adolescente, assistência social, cidade, meio ambiente, cultura e tantas outras” (Raichelis, 2000, p. 6).
Sendo assim, com a existência dos mais distintos atores sociais a publicização tornaria possível com base nas trocas e acordos mais dinâmicos entre o estado e a sociedade civil, pois levando em conta a busca do bem comum, mais atores teriam seus interesses expressos; (Raichelis, 2000) o que nos leva a pensar sobre a 3ª fase da política moderna, que para Raichelis citando Habermas, é a fase em que a participação é um direito garantido, ou seja, é a fase em que há uma preocupação no bem coletivo e para isso é necessário os ouvir. (Raichelis, 2000 e 2008).
Outro conceito é a interculturalidade, de acordo com o autor Cancline Garcia, (2009), esse termo tem relação com a globalização, o intercultural é o que liga as diversas facetas que compõem a ulticulturalidade, hoje vivemos com a diversidade, são diversas etnias, diversas línguas, diversas pessoas estrangeiras circulando em nosso pais a trabalho ou a viagem, temos acesso a multiculturalidade através da TV, rádio, internet, redes sociais, etc. (Cancline, 2009).
De acordo com o autor Cancline muitas pessoas saem do país de origem em busca de uma melhor condição de vida, a questão é: Como determinada região articula essas relações? Como os projetos políticos podem interculturar a multiplicidade (Cancline, 2009), o autor enfatiza que “Faltam interpretações sobre o modo errático e não representativo em que deambula a política” (Cancline, 2009, p.23).
Cancline, enfatiza que os anos 1980 e 1990 marcaram a abertura do comércio, sendo assim, recebemos pessoas de outros países e não refletimos como esta pessoa esta vivendo, se está tendo condições justas de trabalho? Está sendo explorada? (Cancline, 2009). O que temos que fazer hoje é projetos políticos que reconheçam a diversidade, pois tentar criar uma identidade homogênea não é mais preocupação da atualidade, o que se deve entender hoje é a heterogeneidade, ou seja, as diferenças. Para isso se volta ao assunto da publicização, pois quem nos está representando? Será que nossos representantes estão levando em conta as múltiplas facetas ou estamos sendo manipulados? Claro que o processo de publicização não é
perfeito, levando em conta um teórico do século XIX chamado Antônio Gramsci que acreditava que há na política o poder de coerção da classe dominante e o espaço intermediador é um campo de disputas de diversos atores1 que querem um lugar, ou seja, o campo de representação é algo político e nem todos são ouvidos ou nem todos os ideais são expostos. A publicização não é algo criado recentemente, porém com o advento da industrialização e sobretudo do capitalismo leva a existir uma maior busca por representação. (Raichelis, 2000)
Publicização hoje é abrir espaço de participação para diversos sujeitos para terem voz ativa e serem intermediados. E agora, após entendemos o conceito de publicização e interculturalidade temos que nos perguntar quais seus limites e possibilidades? Esse processo intermediador é perfeito? Como visto parece que não, pois são diversos os excluídos e a interculturalidade ainda é algo desconhecido.
De acordo com Raichelis os representantes substituem os usuários e acabam por roubar a fala, sendo assim, é necessário repensar e reorganizar a representação (Raichelis, 2000 p.14), talvez algo menos burocrático possibilitasse que mais pessoas
1- Essa mesma informação sobre Gramsci está em nota de Rodapé no artigo Democratizar a Gestão das Políticas Sociais – Um Desafio a Ser Enfrentado pela Sociedade Civil da autora Raquel Raichelis publicado em Política Social. Módulo 03. Capacitação em Serviço Social e Política Social.
Programa de Capacitação Continuada para Assistentes Sociais. Brasília. 2000. buscassem reconhecimento social, por mais que os conselhos sejam uma conquista, nem todos os problemas levados por eles consideram a maioria.
Referências Bibliográficas
GARCIA, Cancline Néstor. Diferentes desiguais e desconectados: mapas da interculturalidade; tradução Luiz Sérgio Henrique. - 3. Ed. - Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2009. RAICHELIS, Raquel. Esfera pública e Conselhos de assistência social: caminhos da construção democrática. São Paulo, 5º ed. Cortez, 2008.
_____________. Democratizar a Gestão das Políticas Sociais – Um Desafio a Ser Enfrentado pela Sociedade Civil. Política Social. Módulo 03. Capacitação em Serviço Social e Política Social. Programa de Capacitação Continuada para Assistentes Sociais. Brasília, CFESS, ABEPSS, CEAD/NED-UNB, 2000. Disponível em: http://www.abem-educmed.org.br/fnepas/pdf/servico_social_saude/texto1-4.pdf. Acesso em 25/06/14.
_____________. Esfera pública e assistência social. In Anais do Xvi Congresso Latinoamericano De Escuelas De Trabajo Social. SÃO PAULO, 1998. Disponível em: http://www.ts.ucr.ac.cr/binarios/congresos/reg/slets/slets-016-081.pdf. Acesso em 25/06/14.
SOUZA, Celine. Políticas Publicas: uma Revisão da literatura. Sociologias, Porto Alegre, ano 8, nº 16, jul/dez 2006, p. 20-45.