Nesse trabalho procuro trabalhar com
questões relacionadas com a colonização espanhola na América no século XVI e
XVII a partir do viés da história da alimentação. Procuro fazer um debate sobre
a construção do indígena em relação às práticas ritualísticas de caráter antropomórfico
realizadas por algumas aldeias, e como isso interfere nas relações entre
europeus e indígenas. Procuro também observar a construção da imagem de uma
sociedade indígena 'preguiçosa' e que sabe apenas 'comer, a partir da vicha,
uma bebida de alto teor alcoólico presente na dieta de algumas sociedades. Procuro
analisar um artigo sobre as experiências do Frei Gaspar de Carvajal e a questão
da busca por alimentos na 'colônia'.
Analisar a história da comida é
essencial para construir uma estrutura da organização social e cultural de
qualquer sociedade. Para o autor ... a história da alimentação,
"Por fazer
parte do cotidiano,
a alimentação determina a
formação simbólica de quem somos e de como concebemos o outro; ela se constitui
como um fazer
cotidiano inserido na
cultura que nos
permite formular imagens,
conceitos e preconceitos sobre o outro, determinando assim um imaginário."
(NASCIMENTO, 2008, p.881)
Discussão presente nos dias de hoje,
a alimentação e o Estado caminham juntos, há varias discussões acerca da
desnutrição de vários países, principalmente no continente Africano, e essa
discussão acerca da alimentação é causa de várias politicas publicas de Estado
e que gera grandes discussões. Podemos tomar por exemplo, o governo de Getúlio
Vargas que buscava a erradicação da desnutrição pelo salário mínimo. No século
XX, Carol Hesltosky estuda a relação da alimentação entre o Estado de Mussolini
e a população em geral.
Se todos os argumentos apresentados
não são suficientes para pensar a história da alimentação, vejamos o seguinte,
o fato de caçar, armazenar, refrigerar, cozinhar proporciona uma grande relação
social e pode ser pensada como uma característica da sociedade analisada.
A história da alimentação pode
compreender valores e significados atribuídos a alimentos, por meios de
publicidade pode-se perceber as mudanças nas varias formas de alimentação e
alimentos durante o século XX. Como coloca
“Cabe recordar que
éstaes una de las características más fuertes en las que los grupos encuentran identificación
propia y otorgan a otros grupos parte de suidentidad por lo que comen. La
dieta, sus normas y preparaciones cumplían el papel de marcas civilizatorias
ante losojos de losespañoles.” (SALDARRIAGA,
2009,p.17)
A expedição de Pizarro que ocorreu em
1516 queria tinha por objetivo chegar a El dorado, que segundo a lenda era rico
e cheio de tesouros, mas com o passar do tempo deixaram de lado a busca e
passaram a busca por comida, "A partir daí, ocorre uma mudança de foco da
viagem, os espanhóis que o tempo
todo vinham com a certeza
de encontrar o
El Dorado e
o país da
Canela, passam a ter como prioridade a busca pela sobrevivência
(comida)." (NASCIMENTO, 2008, p.881).
Um dos participantes da expedição de
Pizarro era o Frei Gaspar de Carvajal, e é a partir de seus relatos que a
autora Nascimento irá fazer suas observações acerca da alimentação indígena,
para ela a questão da alimentação para Frei Gaspar era algo essencial, "(...)
a questão da
comida aparece como algo
primordial; através dela,
surgem comparações entre
ambas culturas, mostrando-a como
estabelecedora de identidades." (NASCIMENTO, 2008,p.881)
Um das principais atividades de
agricultura indígena era o milho, que para o Frei era à base de sustentação e
componente fundamental das sociedades indígenas, mas é claro que era assumido
de formas diferentes e tinha diferentes formas de preparo em toda a América do
Sul.
Os espanhóis da expedição em busca
de El dorado que posteriormente passou a ser por comida, fez com que atacassem
vários povoados em busca de comida. Carvajal também relata a questão da chicha são
os modos de armazenamento e o grande teor alcoólico na bebida.
Para Nascimento a comida perpassa
dois momentos na expedição de Pizarro, um primeiro foi amistoso, em que os índios
entregavam de boa vontade, pensando que os espanhóis eram deuses, depois passa
a um momento em que os espanhóis passam a usar a força para conseguir comida,
ao perceberem que os índios não suprem mais suas necessidades.
Porém,
o interessante de perceber é que como coloca Nascimento, os espanhóis não rejeitaram
a alimentação, "Em nenhum momento, os espanhóis rejeitam os hábitos alimentares
indígenas, pois a necessidade por alimento é latente e marca o contato conflituoso
entre ambas culturas." (NASCIMENTO, 2008, p.884).
Enfim, ao observarmos os relatos de
Frei de Carvajal temos que ter em mente que era um espanhol e europeu falando
sobre os indígenas, porém, não cabe aqui discutir se seus relatos eram
verdadeiros ou não, pois o que deve ser levado em consideração são seus relatos
e sua visão acerca da alimentação indígena.
A
chegada dos espanhóis na América trouxe consigo a visão dos europeus de que os
indígenas eram inferiores a eles, uma dos foras de colocar a sua identidade em
relação à outra e através de sua alimentação, assim, as comidas, as formas de
preparação e os rituais marcam relações de ‘civilidade’ entre os espanhóis e os
indígenas.
As práticas de comer carne humana estavam
presentes em algumas sociedades indígenas antes mesmo da chegada dos espanhóis,
ela era uma atividade ritualística que buscava a apropriação das forças
inimigas mediante a alimentação de sua carne, essa pratica representava guerras
entre indígenas e era feita com os inimigos derrotados em combate. Porém, com a
chegada dos espanhóis essa estrutura se modificou, bem como as guerras de
conquistas as formas de defesa, tudo se desestruturou e as praticas antromórficas
tomaram diferentes proporções.
A antropofagia indígena, tinha
um caráter ritualístico, que tinha como objetivo a aproximação das forças
inimigas e a consolidação do poder do guerreiro mediante a alimentação a
alimentação da carne dos capturados. Porém, com a chegada dos espanhóis essa
concepção e equilíbrio mudam, “(...)la guerra de conquista, defensa y
desequilibrio (o por lo menos un nuevo
marco de relaciones),
las prácticas antropofágicas adquirieron mayores dimensiones y nuevas
características” (SALDARRIAGA,
2009, p.18)
A pratica de comer carne humana
vista através dos europeus criou um discurso de necessidade dos espanhóis de
‘guiar os indígenas para uma vida melhor’, assim praticas religiosas de
catequização foram colocadas para justificar um discurso de humanização dos
indígenas. Porém independente de sua alimentação, deveria pagar tributos “Pero
a fin de cuentas, independientemente de que comieraninsectos o pan de trigo,
los índios debían pagar tributo.” (WEIS, 2009, p.11)
A partir disso, a autora coloca um
conceito de canibalismo de substencia, onde a partir do avanço ocidental feita
pelos espanhóis, modificou as formas e defesas de guerra, aliando a força
simbólica da carne humana com a falta de carne devido a novas estratégias de
guerra.
A autora coloca que os espanhóis não
viram à questão cultura e simbólica presente nas práticas antropomórficas dos
indígenas, através de obras de cronistas a autora coloca que os escritos sobre
as praticas estavam ligadas a questões religiosas e morais, mostrando a questão
dos grandes pecados que estavam cometendo, e que no reino de granada
encontravam-se grandes ‘carniceiros’.
A antropofagia não era algo
desconhecido na Europa, em épocas de crises econômicas, se alimentarem de carne
humana foi uma solução encontrada, porém, não tem como comparar as duas
realidades, pois na Europa, as falas sobre esse assunto era obstruída por uma
sociedade de alteridade em relação aos indígenas. Assim a antropofagia no reino
de Granada era algo que segundo o autor se viu baseada em confrontos militares
e uma presença exacerbada de espanhóis.
A necessidade dos espanhóis de mão
de obra acarretou em aprisionamento dessas aldeias que praticavam a
antropofagia, com base nas determinações da coroa, embora essas práticas não
fossem realizadas por todas as sociedades indígenas essa concepção foi
alastradas pelos espanhóis para todas as sociedades, mesmo as que não se
rebelarão e nem se alimentavam de carne humana, isso parte da ideia dos
espanhóis de indígenas desorganizados e 'selvagens'.
A colonização espanhola na América
foi e ainda é tema de grande discussão historiográfica, principalmente para
pensar as relações entre espanhóis e indígenas, deixando de lado a dicotomia de
vilão e herói. para o autor, a colonização se deu por meio da violência e
negociação, pois, os indígenas não conheciam o estrutura burocrática e
hierarquizada do trabalho e as relações de poder, pois, em várias tribos o
Cacique era permanente, em outras temporário, e ele não tinha tanta interversão
nas relações sociais.
A chicha era um alimento bastante tomado pelos indígenas,
muitos autores como Enciso colocam que essa bebia sustentava os indígenas para
trabalhar o dia inteiro sem a necessidade de outra refeição. A chicha era uma
vinculação ao trabalho, as festas e as celebrações indígenas, e fazia parte
essencial nas relações sociais nos mesmos aspectos pensados anteriormente, a
preparação, conteúdo e consumo. Para o autor
"Como celebración, la chicha era bebida en fiestas, en las cuales
se cantaba, bailaba, compartía y peleaba. " (SALDARRIAGA, 2009, p.20)
A estigmação dos indígenas como
viciados e embriagados em bebidas se vincula a necessidade de alguns setores em
exercer um poder sobre o trabalho indígena, como podemos observar nessa
passagem, "Para ellos, las fiestas en que se consumía chicha eran momentos
de caos, en los cuales se cometían incestos, idolatrías, asesinatos,
canibalismo, y se perdía el respeto a Dios". (SALDARRIAGA, 2009, p.21)
A alimentação indígena não era homogênea,
nem as formas de preparo, uma das críticas feitas aos olhos espanhóis, está
ligada a hora de comer e o descuido do preparo, para os espanhóis os 'insetos'
eram alimentos 'selvagens' dos indígenas, como a criação de formigas, que
representava nutriente presente em algumas sociedades indígenas nas cidade de
Velez e Tujna.
Assim, a discussão em torno da
história da alimentação perpassa por várias práticas culturais, sociais e
políticas, deixando de lado a dicotomia entre espanhóis e indígenas, mas
perceber suas relações ao que concerne a alimentação e suas práticas.
Referências Bibliográficas
HELSTOSKY, Carol. Garlic
and Oil: Politics and food in Italy. Oxford y Nueva York, Berg, 2004.
WEIS,
Robert G. De panzas y prejuicios: la historia y la comida in revista de história ibero-americana. 2009, vol. 2 núm. 2.
SALDARRIAGA,
Gregorio. Comedores de porquerías: control y sanción de laalimentación
indígena, desde la óptica españolaenelNuevo Reino de Granada (siglos XVI y
XVII).in revista de história
ibero-americana. 2009, vol. 2 núm. 2.
NASCIMENTO,
Francemilda L. de; SANTELLI, Adriana D.; LIMA, Simone de S. Alimentação e
imaginário de conquista: uma breve incisão sobre o relato de viagem de frei
Gaspar de Carvajal in Anais do V
congresso Brasileiro de Hispanistas – I congresso Internacional da Associação
Brasileira de Hispanistas. Minas Gerais, 2008.