terça-feira, 3 de junho de 2014

A alimentação e as relações socioculturais na colonização espanhola (XVI-XVII)


            Nesse trabalho procuro trabalhar com questões relacionadas com a colonização espanhola na América no século XVI e XVII a partir do viés da história da alimentação. Procuro fazer um debate sobre a construção do indígena em relação às práticas ritualísticas de caráter antropomórfico realizadas por algumas aldeias, e como isso interfere nas relações entre europeus e indígenas. Procuro também observar a construção da imagem de uma sociedade indígena 'preguiçosa' e que sabe apenas 'comer, a partir da vicha, uma bebida de alto teor alcoólico presente na dieta de algumas sociedades. Procuro analisar um artigo sobre as experiências do Frei Gaspar de Carvajal e a questão da busca por alimentos na 'colônia'.
            Analisar a história da comida é essencial para construir uma estrutura da organização social e cultural de qualquer sociedade. Para o autor ... a história da alimentação,
"Por  fazer  parte  do  cotidiano,  a  alimentação determina a formação simbólica de quem somos e de como concebemos o outro; ela se  constitui  como  um  fazer  cotidiano  inserido  na  cultura  que  nos  permite  formular imagens, conceitos e preconceitos sobre o outro, determinando assim um imaginário." (NASCIMENTO, 2008, p.881)

            Discussão presente nos dias de hoje, a alimentação e o Estado caminham juntos, há varias discussões acerca da desnutrição de vários países, principalmente no continente Africano, e essa discussão acerca da alimentação é causa de várias politicas publicas de Estado e que gera grandes discussões. Podemos tomar por exemplo, o governo de Getúlio Vargas que buscava a erradicação da desnutrição pelo salário mínimo. No século XX, Carol Hesltosky estuda a relação da alimentação entre o Estado de Mussolini e a população em geral.
            Se todos os argumentos apresentados não são suficientes para pensar a história da alimentação, vejamos o seguinte, o fato de caçar, armazenar, refrigerar, cozinhar proporciona uma grande relação social e pode ser pensada como uma característica da sociedade analisada.
            A história da alimentação pode compreender valores e significados atribuídos a alimentos, por meios de publicidade pode-se perceber as mudanças nas varias formas de alimentação e alimentos durante o século XX. Como coloca
“Cabe recordar que éstaes una de las características más fuertes en las que los grupos encuentran identificación propia y otorgan a otros grupos parte de suidentidad por lo que comen. La dieta, sus normas y preparaciones cumplían el papel de marcas civilizatorias ante losojos de losespañoles.” (SALDARRIAGA, 2009,p.17)

            A expedição de Pizarro que ocorreu em 1516 queria tinha por objetivo chegar a El dorado, que segundo a lenda era rico e cheio de tesouros, mas com o passar do tempo deixaram de lado a busca e passaram a busca por comida, "A partir daí, ocorre uma mudança de foco da viagem, os espanhóis que o tempo  todo  vinham  com  a  certeza  de  encontrar  o  El  Dorado  e  o  país  da  Canela, passam a ter como prioridade a busca pela sobrevivência (comida)." (NASCIMENTO, 2008, p.881).
            Um dos participantes da expedição de Pizarro era o Frei Gaspar de Carvajal, e é a partir de seus relatos que a autora Nascimento irá fazer suas observações acerca da alimentação indígena, para ela a questão da alimentação para Frei Gaspar era algo essencial, "(...) a  questão  da  comida aparece  como  algo  primordial;  através  dela,  surgem  comparações  entre  ambas culturas,  mostrando-a  como  estabelecedora  de  identidades." (NASCIMENTO, 2008,p.881)
            Um das principais atividades de agricultura indígena era o milho, que para o Frei era à base de sustentação e componente fundamental das sociedades indígenas, mas é claro que era assumido de formas diferentes e tinha diferentes formas de preparo em toda a América do Sul.
            Os espanhóis da expedição em busca de El dorado que posteriormente passou a ser por comida, fez com que atacassem vários povoados em busca de comida. Carvajal também relata a questão da chicha são os modos de armazenamento e o grande teor alcoólico na bebida.
            Para Nascimento a comida perpassa dois momentos na expedição de Pizarro, um primeiro foi amistoso, em que os índios entregavam de boa vontade, pensando que os espanhóis eram deuses, depois passa a um momento em que os espanhóis passam a usar a força para conseguir comida, ao perceberem que os índios não suprem mais suas necessidades.
Porém, o interessante de perceber é que como coloca Nascimento, os espanhóis não rejeitaram a alimentação, "Em nenhum momento, os espanhóis rejeitam os hábitos alimentares indígenas, pois a necessidade por alimento é latente e marca o contato conflituoso entre ambas culturas." (NASCIMENTO, 2008, p.884).
            Enfim, ao observarmos os relatos de Frei de Carvajal temos que ter em mente que era um espanhol e europeu falando sobre os indígenas, porém, não cabe aqui discutir se seus relatos eram verdadeiros ou não, pois o que deve ser levado em consideração são seus relatos e sua visão acerca da alimentação indígena.
            A chegada dos espanhóis na América trouxe consigo a visão dos europeus de que os indígenas eram inferiores a eles, uma dos foras de colocar a sua identidade em relação à outra e através de sua alimentação, assim, as comidas, as formas de preparação e os rituais marcam relações de ‘civilidade’ entre os espanhóis e os indígenas.
            As práticas de comer carne humana estavam presentes em algumas sociedades indígenas antes mesmo da chegada dos espanhóis, ela era uma atividade ritualística que buscava a apropriação das forças inimigas mediante a alimentação de sua carne, essa pratica representava guerras entre indígenas e era feita com os inimigos derrotados em combate. Porém, com a chegada dos espanhóis essa estrutura se modificou, bem como as guerras de conquistas as formas de defesa, tudo se desestruturou e as praticas antromórficas tomaram diferentes proporções.   
            A antropofagia indígena, tinha um caráter ritualístico, que tinha como objetivo a aproximação das forças inimigas e a consolidação do poder do guerreiro mediante a alimentação a alimentação da carne dos capturados. Porém, com a chegada dos espanhóis essa concepção e equilíbrio mudam, “(...)la guerra de conquista, defensa y desequilibrio (o por lo  menos  un nuevo  marco  de  relaciones),  las prácticas  antropofágicas  adquirieron mayores dimensiones y nuevas características”
(SALDARRIAGA, 2009, p.18)
            A pratica de comer carne humana vista através dos europeus criou um discurso de necessidade dos espanhóis de ‘guiar os indígenas para uma vida melhor’, assim praticas religiosas de catequização foram colocadas para justificar um discurso de humanização dos indígenas. Porém independente de sua alimentação, deveria pagar tributos “Pero a fin de cuentas, independientemente de que comieraninsectos o pan de trigo, los índios debían pagar tributo.” (WEIS, 2009, p.11)
            A partir disso, a autora coloca um conceito de canibalismo de substencia, onde a partir do avanço ocidental feita pelos espanhóis, modificou as formas e defesas de guerra, aliando a força simbólica da carne humana com a falta de carne devido a novas estratégias de guerra.
            A autora coloca que os espanhóis não viram à questão cultura e simbólica presente nas práticas antropomórficas dos indígenas, através de obras de cronistas a autora coloca que os escritos sobre as praticas estavam ligadas a questões religiosas e morais, mostrando a questão dos grandes pecados que estavam cometendo, e que no reino de granada encontravam-se grandes ‘carniceiros’.
            A antropofagia não era algo desconhecido na Europa, em épocas de crises econômicas, se alimentarem de carne humana foi uma solução encontrada, porém, não tem como comparar as duas realidades, pois na Europa, as falas sobre esse assunto era obstruída por uma sociedade de alteridade em relação aos indígenas. Assim a antropofagia no reino de Granada era algo que segundo o autor se viu baseada em confrontos militares e uma presença exacerbada de espanhóis.
            A necessidade dos espanhóis de mão de obra acarretou em aprisionamento dessas aldeias que praticavam a antropofagia, com base nas determinações da coroa, embora essas práticas não fossem realizadas por todas as sociedades indígenas essa concepção foi alastradas pelos espanhóis para todas as sociedades, mesmo as que não se rebelarão e nem se alimentavam de carne humana, isso parte da ideia dos espanhóis de indígenas desorganizados e 'selvagens'.
            A colonização espanhola na América foi e ainda é tema de grande discussão historiográfica, principalmente para pensar as relações entre espanhóis e indígenas, deixando de lado a dicotomia de vilão e herói. para o autor, a colonização se deu por meio da violência e negociação, pois, os indígenas não conheciam o estrutura burocrática e hierarquizada do trabalho e as relações de poder, pois, em várias tribos o Cacique era permanente, em outras temporário, e ele não tinha tanta interversão nas relações sociais.
            A chicha  era um alimento bastante tomado pelos indígenas, muitos autores como Enciso colocam que essa bebia sustentava os indígenas para trabalhar o dia inteiro sem a necessidade de outra refeição. A chicha era uma vinculação ao trabalho, as festas e as celebrações indígenas, e fazia parte essencial nas relações sociais nos mesmos aspectos pensados anteriormente, a preparação, conteúdo e consumo. Para o autor   "Como celebración, la chicha era bebida en fiestas, en las cuales se cantaba, bailaba, compartía y peleaba. " (SALDARRIAGA, 2009, p.20)
            A estigmação dos indígenas como viciados e embriagados em bebidas se vincula a necessidade de alguns setores em exercer um poder sobre o trabalho indígena, como podemos observar nessa passagem, "Para ellos, las fiestas en que se consumía chicha eran momentos de caos, en los cuales se cometían incestos, idolatrías, asesinatos, canibalismo, y se perdía el respeto a Dios". (SALDARRIAGA, 2009, p.21)
            A alimentação indígena não era homogênea, nem as formas de preparo, uma das críticas feitas aos olhos espanhóis, está ligada a hora de comer e o descuido do preparo, para os espanhóis os 'insetos' eram alimentos 'selvagens' dos indígenas, como a criação de formigas, que representava nutriente presente em algumas sociedades indígenas nas cidade de Velez e Tujna.
            Assim, a discussão em torno da história da alimentação perpassa por várias práticas culturais, sociais e políticas, deixando de lado a dicotomia entre espanhóis e indígenas, mas perceber suas relações ao que concerne a alimentação e suas práticas.


Referências Bibliográficas
HELSTOSKY, Carol. Garlic and Oil: Politics and food in Italy. Oxford y Nueva York, Berg, 2004.
WEIS, Robert G. De panzas y prejuicios: la historia y la comida in revista de história ibero-americana. 2009, vol. 2 núm. 2.
SALDARRIAGA, Gregorio. Comedores de porquerías: control y sanción de laalimentación indígena, desde la óptica españolaenelNuevo Reino de Granada (siglos XVI y XVII).in revista de história ibero-americana. 2009, vol. 2 núm. 2.
NASCIMENTO, Francemilda L. de; SANTELLI, Adriana D.; LIMA, Simone de S. Alimentação e imaginário de conquista: uma breve incisão sobre o relato de viagem de frei Gaspar de Carvajal in Anais do V congresso Brasileiro de Hispanistas – I congresso Internacional da Associação Brasileira de Hispanistas. Minas Gerais, 2008.
 

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