quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Relações de gênero nos cursos de Pedagogia e Secretariado Executivo na UNICENTRO.

André Luiz Andreola (BIC/UNICENTRO), Luciana Rosar Fornazari Klanovicz (Orientadora), e-mail: lucianarfk@gmail.com.

Universidade Estadual do Centro-Oeste/Setor de Ciências Humanas Letras e Artes - Departamento de História.

Grande área: Ciências Humanas; Área: História; Subárea: História do Brasil.

Palavras-chave: História; Pedagogia; Secretariado Executivo; UNICENTRO;

Resumo:
Esta pesquisa tem como objetivo analisar as relações de gênero em cursos de graduação, no caso, a Pedagogia e o Secretariado Executivo da Universidade Estadual do Centro Oeste (UNICENTRO). De acordo com teorias do estudo de gênero entende-se “Feminino” como um termo embasado por uma cultura que separa tarefa das mulheres das tarefas dos homens, ou seja, um termo sobre um aspecto cultural. A pesquisa utilizou a coleta de dados sobre a entrada de homens nos cursos de graduação para analise da inserção e da participação masculina. O objetivo da pesquisa é problematizar e historicizar as relações de gênero nos cursos procurando observar quais as motivações e desafios enfrentados pelos graduandos. O recorte temporal da pesquisa reside nos anos de 2001 a 2012, levando em conta que no último vestibular realizado para esses dois cursos, dos 117 inscritos, apenas sete eram homens e nenhum foi aprovado em primeira chamada. Podemos concluir que, embora a discussão de relações de gênero e ensino superior já tenha percorrido longo caminho, ainda precisamos de uma grande mudança social em relação às possibilidades de acesso a esses cursos.


Introdução
Esta pesquisa buscou analisar as relações de gênero constituídas nos cursos de Pedagogia e Secretariado Executivo na Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO), foram analisados dados de dois cursos, sendo eles secretariado executivo e pedagogia, cursos tidos como majoritariamente ‘femininos’, devido à própria constituição do campo de pedagogia. Para a autora Kellen Coimbra, "No imaginário popular, as mulheres têm vocação para o magistério, por sua amorosidade, dedicação e inclinação maternal, isto está associado também a uma visão mistificada do processo educativo." (COIMBRA, 2010. p.4), ou seja, nota-se que a divisão te tarefas por gênero ou sexo são construções sociais que limitam os lugares dos homens e de mulheres.
A metodologia utilizada foi a analise e coleta de dados acerca da inserção e a aprovação de homens nos vestibulares dos cursos de secretariado e pedagogia e também por meio da aplicação de entrevistas estruturadas e aplicadas á acadêmicos dos cursos citados, os cursos são da universidade estadual do centro oeste (UNICENTRO) na cidade de Guarapuava, Paraná.
Levando em conta a historicidade da construção de ideia uma atribuição feminina a educação, CUNHA acredita que "Historicamente a educação das crianças pequenas vem sendo, em grande parte das culturas, uma atribuição do universo feminino, portanto, ocupação exercida por quem é considerado inferior frágil (...)" (CUNHA, 2012. p.6)
Ao pensar a universidade como um campo de lutas científicas e expansão do conhecimento, e levando em conta que as relações sociais ali construídas são reflexos da sociedade atual, tais reflexos sociais podem ser notados no campo cientifico e devem ser analisados levando em conta que existem lutas de poderes entre institutos, faculdades, departamentos, áreas de conhecimento, mas, sobretudo entre homens e mulheres em busca de espaço no campo acadêmico.
Dessa forma, leituras advindas do campo de estudos de gênero permitem á desnaturalização da ideia de que determinados campos de conhecimento “pertencem” mais a mulheres do que aos homens (ou vice-versa), sendo assim, tais leituras são fundamentais para perceber as lutas internas em torno da constituição histórica de determinados campos de saber e de profissões da sociedade.

Materiais e métodos

A Universidade Estadual do Centro-Oeste é uma das universidades mais recentes do Estado, emergida a partir da junção da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Guarapuava e a Faculdade de Educação, Ciências e Letras de Irati, em 1997 teve seu reconhecimento constitucional. As fontes utilizadas para a pesquisa são constituídas por entrevistas semiestruturadas e aplicadas á graduandos e graduados dos cursos de Pedagogia e Secretariado.
A pesquisa também conta com questionários estruturados para uma abordagem do assunto. O Recorte temporal da pesquisa é recente e abrange os anos entre 2011 á 2012, dentro desse contexto foram analisados dados sobre número de homens que fizeram o vestibular, quantos passaram e por fim opinião desses graduandos.
Para pensarmos a questão da entrada dos homens nos cursos ‘femininos’, devemos discutir a questão do processo de ‘feminização’ dos cursos de graduação, inclusive nos cursos analisados, sendo eles o magistério e o secretariado. Para Kellen Coimbra, “no imaginário popular, as mulheres têm vocação para o magistério, por sua amorosidade, dedicação e inclinação maternal, isto está associado também a uma visão mistificada do processo educativo." (COIMBRA, 2010. p.4).
 Nessa questão do imaginário sobre o papel da mulher se constitui a ideia do homem em oposição, com isso, podemos perceber que atualmente a educação regional e o meio escolar estão desempenhando formidável papel na naturalização de conceitos sociais onde meninas tem mais propensão às artes e a literatura e os meninos ao calculo.
Para Coimbra, o estudo sobre a construção dos papeis de gênero na educação nos ajuda a entende como se formam os ‘guetos sexuais’, e quais as implicações sociais e culturais nessa divisão. (COIMBRA, 2010) Ainda é recente e lento o aumento de mulheres nas ciências exatas assim como homens da pedagogia e secretariado, tudo  devido essas divisões culturais de papeis que a sociedade ainda reprime e impõe padrões.

Resultados e Discussão
Os cursos analisados foram Pedagogia e Secretariado Executivo da Universidade Estadual do Centro Oeste (UNICENTRO), no período de 2001 a 2012, levando em conta os inscritos do vestibular de 2012 para ambos os cursos, podemos perceber que dos 117 inscritos, apenas sete eram homens e nenhum foi aprovado em primeira chamada (UNICENTRO, 2012).
Entende-se por resultados a informação pertinente aos dados coletados e analisados, abrangendo estudos de caso. Em entrevistas com questionários semi-estruturadas foram mapeados dois perfis mais comuns entres os acadêmicos homens dos cursos de pedagogia e secretariado executivo, de um lado percebemos que a maioria dos entrevistados afirma que escolheram a graduação por gostarem de trabalhar com crianças, outros entrevistados homens como o caso do entrevistado M, colocam a questão da resistência a profissionais homens devido a uma concepção construída de que homens são todos pedófilos, e não podem ficar perto de crianças.
Por outro lado, no curso de secretariado executivo, o fato de ser homem parece influenciar bastante na hora da procura de emprego, principalmente nas empresas particulares onde o fato de contratar um homem para o cargo nem é cogitado, como coloca o entrevistado L, “Além disso, são muito poucos os cargos disponíveis que ganhe um salario razoável. Se pudesse voltar não faria esta faculdade”, mostrando a sua insatisfação perante o mercado de trabalho atual.

Conclusões
 Podemos concluir que, muitos fatores influenciam na decisão de fazer uma graduação, no caso dessa pesquisa, a escolha masculina por cursos ‘femininos’ pode ser entendida por várias situações, desde a questão financeira, até o apoio da família. Assim, embora a discussão acerca das relações de gênero e Ensino superior já tenha percorrido longo caminho para uma possibilidade de acesso, ainda há conceitos e percepções estereotipadas sobre os campos da Pedagogia e Secretariado Executivo. Sendo assim, ainda temos que percorrer longo caminho de discussões para refletir em e mudanças na concepção de ensino e educação no que concernem as relações de gênero.

Agradecimentos
Agradeço a UNICENTRO por ter me concedido a bolsa; a todos os integrantes do Laboratório de História Ambiental e Gênero pelo apoio e pelas acaloradas discussões teórico-metodológicas. Agradeço também a minha orientadora Profa. Dra. Luciana Klanovicz.

Referências
COIMBRA, Kellen Regina Moares; GONÇALVES, Maria de F. da C. RODRIGUES, Fernanda L. Reflexões sobre a feminização do magistério in Anais do Evento II Seminário Nacional Sociologia e Política, vol. 12, n.1. UFPR, 2010.
GUEDES, Moema de Castro. A presença feminina nos cursos universitários e nas pós-graduações: desconstruindo a idéia da universidade como espaço masculino. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v.15, supl., p.117-132, jun. 2008.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Os conceito de Publicização e Interculturalidade

Por Elisiane Zvir,

De acordo com Habermas apud Raichelis (2008), uma esfera burguesa seria responsável por estabelecer uma relação entre sociedade civil e o estado no século XVIII, pois devido à circulação econômica surge a necessidade de novos espaços de participação existirem, pois com o tempo a liberdade descrita por Arend (1991) apud Raichelis (2008), tal liberdade somente considerada quando determinada pessoa ser tinha o direito de participar da política, essa liberdade com o tempo necessita de algo mediador. (Raichelis, 2008) 
Não é de qualquer liberdade que estamos falando, e sim, de uma tal maneira que possibilite e tenha “legitimidade na sociedade civil” (Raichelis, 2008), isso marca um componente da tão chamada “teoria política moderna” (Raichelis, 2008). De acordo com Raichelis (2008), essa teoria perpassa por 3 grandes fases, na 1ª, é onde se forma tal esfera, onde proprietários possuem algo e pensavam somente nos seus 
interesses pessoais passam a ter preocupação com interesse coletivo. (Raichelis, 2008) 
Se no século XVIII a burguesia tinha uma política forte e autoritária uma contradição se perspicaz, pois para ir passos contra tal governo o primeiro caminho era buscar a participação popular, agora temos que nos perguntar o que elaboraria tais argumentos ou discussão? O que ligaria o povo sem voz ativa ao estado? Sendo assim, há necessidade de algo intermediador que de acordo com Raichelis, na política moderna isso é chamada por diferentes autores de publicização. (Raichelis, 2008). A publicização serve de intermediador garantindo alguns direitos como “opinião de expressão, de imprensa, associação” (Raichelis, 2008 p. 52). Recorrendo a Habermas a autora Raichelis enfatiza sobre uma 2ª fase que se caracteriza pela ampliação de direitos (Raichelis, 2008), considerando que as políticas públicas vem de cima, e a população é multicultural e tem suas demandas, levando a crer que é necessário algo que faça intermediação entre sociedade civil e estado, pensando o caso do Brasil, sabe-se que nos anos 80 teve a crise do poder autoritário do regime militar, ou seja, um período marcado por crises, miséria mas também mudanças, de acordo com Raichelis (2000), esse foi o período em que mais se desenvolveu a preocupação com a democratização no Brasil, pois foi nos anos 80 e em 1988 que a constituição federal implanta os conselhos. (Raichelis, 2000, p. 5). 
De acordo com Raichelis, os conselhos mostram hoje a demanda de diferentes tipos de participação, pois há conselhos “em curso nas áreas da saúde, criança e adolescente, assistência social, cidade, meio ambiente, cultura e tantas outras” (Raichelis, 2000, p. 6). 
Sendo assim, com a existência dos mais distintos atores sociais a publicização tornaria possível com base nas trocas e acordos mais dinâmicos entre o estado e a sociedade civil, pois levando em conta a busca do bem comum, mais atores teriam seus interesses expressos; (Raichelis, 2000) o que nos leva a pensar sobre a 3ª fase da política moderna, que para Raichelis citando Habermas, é a fase em que a participação é um direito garantido, ou seja, é a fase em que há uma preocupação no bem coletivo e para isso é necessário os ouvir. (Raichelis, 2000 e 2008). 
Outro conceito é a interculturalidade, de acordo com o autor Cancline Garcia, (2009), esse termo tem relação com a globalização, o intercultural é o que liga as diversas facetas que compõem a ulticulturalidade, hoje vivemos com a diversidade, são diversas etnias, diversas línguas, diversas pessoas estrangeiras circulando em nosso pais a trabalho ou a viagem, temos acesso a multiculturalidade através da TV, rádio, internet, redes sociais, etc. (Cancline, 2009). 
De acordo com o autor Cancline muitas pessoas saem do país de origem em busca de uma melhor condição de vida, a questão é: Como determinada região articula essas relações? Como os projetos políticos podem interculturar a multiplicidade (Cancline, 2009), o autor enfatiza que “Faltam interpretações sobre o modo errático e não representativo em que deambula a política” (Cancline, 2009, p.23). 
Cancline, enfatiza que os anos 1980 e 1990 marcaram a abertura do comércio, sendo assim, recebemos pessoas de outros países e não refletimos como esta pessoa esta vivendo, se está tendo condições justas de trabalho? Está sendo explorada? (Cancline, 2009). O que temos que fazer hoje é projetos políticos que reconheçam a diversidade, pois tentar criar uma identidade homogênea não é mais preocupação da atualidade, o que se deve entender hoje é a heterogeneidade, ou seja, as diferenças. Para isso se volta ao assunto da publicização, pois quem nos está representando? Será que nossos representantes estão levando em conta as múltiplas facetas ou estamos sendo manipulados? Claro que o processo de publicização não é 
perfeito, levando em conta um teórico do século XIX chamado Antônio Gramsci que acreditava que há na política o poder de coerção da classe dominante e o espaço intermediador é um campo de disputas de diversos atores1 que querem um lugar, ou seja, o campo de representação é algo político e nem todos são ouvidos ou nem todos os ideais são expostos. A publicização não é algo criado recentemente, porém com o advento da industrialização e sobretudo do capitalismo leva a existir uma maior busca por representação. (Raichelis, 2000) 
Publicização hoje é abrir espaço de participação para diversos sujeitos para terem voz ativa e serem intermediados. E agora, após entendemos o conceito de publicização e interculturalidade temos que nos perguntar quais seus limites e possibilidades? Esse processo intermediador é perfeito? Como visto parece que não, pois são diversos os excluídos e a interculturalidade ainda é algo desconhecido. 
De acordo com Raichelis os representantes substituem os usuários e acabam por roubar a fala, sendo assim, é necessário repensar e reorganizar a representação (Raichelis, 2000 p.14), talvez algo menos burocrático possibilitasse que mais pessoas  

1- Essa mesma informação sobre Gramsci está em nota de Rodapé no artigo Democratizar a Gestão das Políticas Sociais – Um Desafio a Ser Enfrentado pela Sociedade Civil da autora Raquel Raichelis publicado em Política Social. Módulo 03. Capacitação em Serviço Social e Política Social. 
Programa de Capacitação Continuada para Assistentes Sociais. Brasília. 2000. buscassem reconhecimento social, por mais que os conselhos sejam uma conquista, nem todos os problemas levados por eles consideram a maioria. 

Referências Bibliográficas 
GARCIA, Cancline Néstor. Diferentes desiguais e desconectados: mapas da interculturalidade; tradução Luiz Sérgio Henrique. - 3. Ed. - Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2009. RAICHELIS, Raquel. Esfera pública e Conselhos de assistência social: caminhos da construção democrática. São Paulo, 5º ed. Cortez, 2008. 
_____________. Democratizar a Gestão das Políticas Sociais – Um Desafio a Ser Enfrentado pela Sociedade Civil. Política Social. Módulo 03. Capacitação em Serviço Social e Política Social. Programa de Capacitação Continuada para Assistentes Sociais. Brasília, CFESS, ABEPSS, CEAD/NED-UNB, 2000. Disponível em: http://www.abem-educmed.org.br/fnepas/pdf/servico_social_saude/texto1-4.pdf. Acesso em 25/06/14. 
_____________. Esfera pública e assistência social. In Anais do Xvi Congresso Latinoamericano De Escuelas De Trabajo Social. SÃO PAULO, 1998. Disponível em: http://www.ts.ucr.ac.cr/binarios/congresos/reg/slets/slets-016-081.pdf. Acesso em 25/06/14. 
SOUZA, Celine. Políticas Publicas: uma Revisão da literatura. Sociologias, Porto Alegre, ano 8, nº 16, jul/dez 2006, p. 20-45. 

A construção das Políticas Públicas no Brasil

Vamos procurar discutir aqui nessas linhas, primeiramente a contextualização do campo de estudo das politicas públicas em suas discussões, e posteriormente vamos discutir como foi essa construção das politicas públicas no Brasil. 
Para inicio de conversa vamos pensar a questão da contextualição das politicas públicas, iniciando sua discussão nos debates na segunda metade do século XX, para isso vamos utilizar a autora Celina Souza, em seu artigo Politicas Públicas: uma revisão da literatura. Ela entende que a questão do surgimento das politicas publicas está baseada em alguns fatores principais, (SOUZA, 2006) o primeiro seria a questão de que havia o crescimento da preocupação de vários países, principalmente os que estavam em desenvolvimento econômico, em um controle de gastos, o que influenciou em uma implementação das politicas públicas nas últimas décadas (SOUZA, 2006). 
Em segundo lugar, ela coloca a questão de um maior controle fiscal, e uma nova visão sobre o próprio papel do governo, faz com que as politicas do mesmo fossem de redução e restrição de gastos, (SOUZA, 2006). Buscamos agora, pensar como a autora procura definir o conceito de politicas públicas, embora, ela traga várias definições e abordagens sobre as politicas públicas, podemos entender que para ela a politica publica é um campo “... do conhecimento que busca, ao mesmo tempo, “colocar o governo em ação” e/ou analisar essa ação (variável independente) e, quando necessário, propor mudanças no rumo ou curso dessas ações (variável dependente).” (SOUZA, 2006, p.26). 
Sendo as politicas publicas um campo que procura analisar as ações do governo e propor mudanças, várias foram às abordagens para execução das politicas publicas em variados países, uma das mais recentes abordagens é influenciada pelo “novo gerencialismo publico” e pelo ajuste fiscal, como coloca a autora (SOUZA 2006).
Nesse modelo, a eficiência delegação para outras instituições para além do estado foram cada vez mais utilizadas, assim como coloca Souza “A delegação para órgãos “independentes” nacionais, mas também internacionais, passou a ser outro elemento importante no desenho das políticas públicas.” (SOUZA, 2006 p.35). Assim há implementação em vários países de um gerenciamento que procuram criar politicas públicas com caráter mais participativo, de outras instituições não governamentais (SOUZA, 2006, p.36) e para a autora essa tentativa tem “importância crucial das instituições/regras para a decisão, formulação e implementação de políticas públicas.” (SOUZA, 2006 p.37) 
Passando esta questão, mesmo que de uma maneira mais sucinta, sobre a definição da autora sobre o conceito de politicas públicas e sua gênese de discussão no século XX, podemos agora procurar analisar como foi à construção das politicas publicas no Brasil, utilizando o texto da autora Raquel Raichelis, intitulado Esfera pública e Conselhos de assistência social: caminhos da construção democrática, nesse texto podemos perceber que, para a autora o inicio da discussão sobre politicas publicas no Brasil está ligado ao processo de democratização social do país na década de 1980 (RAICHELIS, 2008). 
Uma teoria que ela apresenta em várias discussões e textos, como por exemplo, em seu outro artigo, publicado anteriormente em 2000, à autora constrói de forma mais direta e suscita as questões da contextualização das politicas publicas no Brasil, para ela a questão da democratização em frente a um governo militar ditatorial tem uma grande importância, assim, o inicio do debate (...) tem origem no quadro político dos anos 80, quando emergem com vigor as lutas contra a ditadura militar e os esforços pela construção democrática do Estado e da sociedade civil.” (RAICHELIS, 2000, p.4) 
Em meio a esse turbilhão de ideias e movimentos, surge várias reformulações da própria relação entre o estado e sociedade civil na década de 80, “desde a década de 80, (...) o Brasil foi palco de um processo de revitalização da sociedade civil, que na luta pela democratização, colocou em xeque não apenas o Estado ditatorial, mas a rede de instituições autoritárias que atravessava a sociedade e caracterizava as reações entre os grupos e as classes sociais.” (RAICHELIS, 2008, p.72) 
Para a autora, no Brasil, essa emergência de politicas sociais vindas estrategicamente do estado, está ligada como um mecanismo de enfretamento das questões sociais perante um capitalismo monopolista e a crise do Welfare State, cuja base está nas politicas de pleno emprego (RAICHELIS, 2008), como ela mesma coloca no seu texto, “(...) a politica social, como estratégia de Estado, começar a ser implementada no contexto da emergência, do capitalismo monopolista, como mecanismo de enfrentamento das sequelas da questão social.” (RAICHELIS, 2008 p.34-35) 
Vimos aqui, que o a década de 80 foi marcada pelos movimentos frente à ditadura militar, e que há surgimentos das discussões sobre a necessidade e efetividade de politicas publicas para o Brasil, em meio a tudo isso, a década de noventa vem com grandes mudanças nas questões sociais e politicas, para a autora Raquel Raichelis em seu texto intitulado Esfera Pública Assistência Social publicado em 1998, a década 
de 90 trouxe mudanças muito importantes em relação a maior participação de vários segmentos da sociedade civil nas tomadas de decisões do estado. (RAICHELIS, 1998) Uma dos marcos das mudanças na década de 90 é a grande expansão de ONGS, cujo crescimento pode ser visto em relação aos anos 70 e 80 e que vem como um mecanismo de maior participação da esfera civil nas decisões governamentais. (RAICHELIS, 1998) 
Enfim, acredito que procuramos expor e discutir aqui, mesmo que de forma suscita, a contextualição histórica sobre a conceituação das politicas publicas, bem como o surgimento de sua discussão no Brasil da década de 80. Discussão qual emergiu de uma sociedade que tinha seus movimentos sociais baseados em uma luta contra um regime ditatorial, e que está com problemas de pobreza e miséria as discussões sobre politicas publicas começar a aflorar. 
Na década de 90, as discussões sobre politicas publicas se tornaram complexas, no momento em que há um grande crescimento e fortalecimento de ONGS nas tomadas de decisões governamentais. Assim podemos entender que o surgimento das discussões de politicas publicas no Brasil, estão em meios a disputas politicas e movimentos sociais intrinsicamente ligados à busca pela redemocratização do país. E como coloca Raichelis essa é a dinâmica da sociedade que fortalece a ideia na organização das politicas publicas, e a participação maior de diversos grupos sociais, principalmente os mais excluídos das decisões tomadas. (RAICHELIS, 2000)


Referências Bibliográficas 
GARCIA, Cancline Néstor. Diferentes desiguais e desconectados: mapas da interculturalidade; tradução Luiz Sérgio Henrique. - 3. Ed. - Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2009. 
RAICHELIS, Raquel. Esfera pública e Conselhos de assistência social: caminhos da construção democrática. São Paulo, 5º ed. Cortez, 2008.
_____________. Democratizar a Gestão das Políticas Sociais – Um Desafio a Ser Enfrentado pela Sociedade Civil. Política Social. Módulo 03. Capacitação em Serviço Social e Política Social. Programa de Capacitação Continuada para Assistentes Sociais. Brasília, CFESS, ABEPSS, CEAD/NED-UNB, 2000. Disponível em: http://www.abem-educmed.org.br/fnepas/pdf/servico_social_saude/texto1-4.pdf. 
Acesso em 25/06/14. 
_____________. Esfera pública e assistência social. In Anais do Xvi Congresso Latinoamericano De Escuelas De Trabajo Social. SÃO PAULO, 1998. Disponível em: http://www.ts.ucr.ac.cr/binarios/congresos/reg/slets/slets-016-081.pdf. Acesso em 25/06/14 
SOUZA, Celine. Políticas Publicas: uma Revisão da literatura. Sociologias, Porto Alegre, ano 8, nº 16, jul/dez 2006, p. 20-45. 

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Um pensamento sobre o ensino de História da África

A lei 10.693 criada em 2003, que tem como objetivo a implementação do ensino da história da África no currículo escolar brasileiro vem de um debate dos anos 90 sobre a questão da multiplicidade cultural brasileira e como a mesma estava sendo refletida na educação básica.
No final do século XIX e inicio do XX a construção do conceito de Brasil e do ser ‘brasileiro’ estava ligada historicamente a uma história da Europa, sempre ligando o brasileiro a sua ‘descendência’ europeia e não levando tanto em consideração outras etnias que também foram essenciais para a construção do “Brasil”, como os indígenas e os Africanos que vieram na condição de escravo e foram utilizados como mão de obra em fazendas e açúcar e em vários lugares espalhados pelo território.
Pensando o texto de José Fernandes chamado ‘Ensino de História e diversidade cultural: desafios e possibilidades’, podemos perceber a preocupação e a discussão em torno da discussão de um ensino de história que abranja as minorias como os indígenas e os negros, elementos da formação da diversidade brasileira. Muito se pensa sobre a efetivação da lei que obriga o ensino de história da África nas escolas, e como ela ser abordada e trabalhada no ensino superior, lugar de formação de professoras para a rede publica, a historiadora Marina de Mello e Souza em uma entrevista que deu em um vídeo História da África, relatou que o problema sobre a pesquisa em história e ensino da África não reside na falta de fontes e bibliografia para o ensino, mas uma falta de preparo para se trabalhar com essas fontes e com esse conteúdo.

Fernandes pensa algumas propostas para uma tentativa de aperfeiçoamento e preparo de professores para o ensino de história da África ele propõe que cursos sobre diversidade cultural, no âmbito do ensino superior, propõem um aumento das instituições de fomento para que criem mais programas e pesquisas na área, porém, não podemos deixar de lado a nossa parte como professores, e procurar preencher essa lacuna para que possamos contribuir a uma educação que abranja diversas culturas e não reproduza mais estereótipos.

terça-feira, 3 de junho de 2014

A alimentação e as relações socioculturais na colonização espanhola (XVI-XVII)


            Nesse trabalho procuro trabalhar com questões relacionadas com a colonização espanhola na América no século XVI e XVII a partir do viés da história da alimentação. Procuro fazer um debate sobre a construção do indígena em relação às práticas ritualísticas de caráter antropomórfico realizadas por algumas aldeias, e como isso interfere nas relações entre europeus e indígenas. Procuro também observar a construção da imagem de uma sociedade indígena 'preguiçosa' e que sabe apenas 'comer, a partir da vicha, uma bebida de alto teor alcoólico presente na dieta de algumas sociedades. Procuro analisar um artigo sobre as experiências do Frei Gaspar de Carvajal e a questão da busca por alimentos na 'colônia'.
            Analisar a história da comida é essencial para construir uma estrutura da organização social e cultural de qualquer sociedade. Para o autor ... a história da alimentação,
"Por  fazer  parte  do  cotidiano,  a  alimentação determina a formação simbólica de quem somos e de como concebemos o outro; ela se  constitui  como  um  fazer  cotidiano  inserido  na  cultura  que  nos  permite  formular imagens, conceitos e preconceitos sobre o outro, determinando assim um imaginário." (NASCIMENTO, 2008, p.881)

            Discussão presente nos dias de hoje, a alimentação e o Estado caminham juntos, há varias discussões acerca da desnutrição de vários países, principalmente no continente Africano, e essa discussão acerca da alimentação é causa de várias politicas publicas de Estado e que gera grandes discussões. Podemos tomar por exemplo, o governo de Getúlio Vargas que buscava a erradicação da desnutrição pelo salário mínimo. No século XX, Carol Hesltosky estuda a relação da alimentação entre o Estado de Mussolini e a população em geral.
            Se todos os argumentos apresentados não são suficientes para pensar a história da alimentação, vejamos o seguinte, o fato de caçar, armazenar, refrigerar, cozinhar proporciona uma grande relação social e pode ser pensada como uma característica da sociedade analisada.
            A história da alimentação pode compreender valores e significados atribuídos a alimentos, por meios de publicidade pode-se perceber as mudanças nas varias formas de alimentação e alimentos durante o século XX. Como coloca
“Cabe recordar que éstaes una de las características más fuertes en las que los grupos encuentran identificación propia y otorgan a otros grupos parte de suidentidad por lo que comen. La dieta, sus normas y preparaciones cumplían el papel de marcas civilizatorias ante losojos de losespañoles.” (SALDARRIAGA, 2009,p.17)

            A expedição de Pizarro que ocorreu em 1516 queria tinha por objetivo chegar a El dorado, que segundo a lenda era rico e cheio de tesouros, mas com o passar do tempo deixaram de lado a busca e passaram a busca por comida, "A partir daí, ocorre uma mudança de foco da viagem, os espanhóis que o tempo  todo  vinham  com  a  certeza  de  encontrar  o  El  Dorado  e  o  país  da  Canela, passam a ter como prioridade a busca pela sobrevivência (comida)." (NASCIMENTO, 2008, p.881).
            Um dos participantes da expedição de Pizarro era o Frei Gaspar de Carvajal, e é a partir de seus relatos que a autora Nascimento irá fazer suas observações acerca da alimentação indígena, para ela a questão da alimentação para Frei Gaspar era algo essencial, "(...) a  questão  da  comida aparece  como  algo  primordial;  através  dela,  surgem  comparações  entre  ambas culturas,  mostrando-a  como  estabelecedora  de  identidades." (NASCIMENTO, 2008,p.881)
            Um das principais atividades de agricultura indígena era o milho, que para o Frei era à base de sustentação e componente fundamental das sociedades indígenas, mas é claro que era assumido de formas diferentes e tinha diferentes formas de preparo em toda a América do Sul.
            Os espanhóis da expedição em busca de El dorado que posteriormente passou a ser por comida, fez com que atacassem vários povoados em busca de comida. Carvajal também relata a questão da chicha são os modos de armazenamento e o grande teor alcoólico na bebida.
            Para Nascimento a comida perpassa dois momentos na expedição de Pizarro, um primeiro foi amistoso, em que os índios entregavam de boa vontade, pensando que os espanhóis eram deuses, depois passa a um momento em que os espanhóis passam a usar a força para conseguir comida, ao perceberem que os índios não suprem mais suas necessidades.
Porém, o interessante de perceber é que como coloca Nascimento, os espanhóis não rejeitaram a alimentação, "Em nenhum momento, os espanhóis rejeitam os hábitos alimentares indígenas, pois a necessidade por alimento é latente e marca o contato conflituoso entre ambas culturas." (NASCIMENTO, 2008, p.884).
            Enfim, ao observarmos os relatos de Frei de Carvajal temos que ter em mente que era um espanhol e europeu falando sobre os indígenas, porém, não cabe aqui discutir se seus relatos eram verdadeiros ou não, pois o que deve ser levado em consideração são seus relatos e sua visão acerca da alimentação indígena.
            A chegada dos espanhóis na América trouxe consigo a visão dos europeus de que os indígenas eram inferiores a eles, uma dos foras de colocar a sua identidade em relação à outra e através de sua alimentação, assim, as comidas, as formas de preparação e os rituais marcam relações de ‘civilidade’ entre os espanhóis e os indígenas.
            As práticas de comer carne humana estavam presentes em algumas sociedades indígenas antes mesmo da chegada dos espanhóis, ela era uma atividade ritualística que buscava a apropriação das forças inimigas mediante a alimentação de sua carne, essa pratica representava guerras entre indígenas e era feita com os inimigos derrotados em combate. Porém, com a chegada dos espanhóis essa estrutura se modificou, bem como as guerras de conquistas as formas de defesa, tudo se desestruturou e as praticas antromórficas tomaram diferentes proporções.   
            A antropofagia indígena, tinha um caráter ritualístico, que tinha como objetivo a aproximação das forças inimigas e a consolidação do poder do guerreiro mediante a alimentação a alimentação da carne dos capturados. Porém, com a chegada dos espanhóis essa concepção e equilíbrio mudam, “(...)la guerra de conquista, defensa y desequilibrio (o por lo  menos  un nuevo  marco  de  relaciones),  las prácticas  antropofágicas  adquirieron mayores dimensiones y nuevas características”
(SALDARRIAGA, 2009, p.18)
            A pratica de comer carne humana vista através dos europeus criou um discurso de necessidade dos espanhóis de ‘guiar os indígenas para uma vida melhor’, assim praticas religiosas de catequização foram colocadas para justificar um discurso de humanização dos indígenas. Porém independente de sua alimentação, deveria pagar tributos “Pero a fin de cuentas, independientemente de que comieraninsectos o pan de trigo, los índios debían pagar tributo.” (WEIS, 2009, p.11)
            A partir disso, a autora coloca um conceito de canibalismo de substencia, onde a partir do avanço ocidental feita pelos espanhóis, modificou as formas e defesas de guerra, aliando a força simbólica da carne humana com a falta de carne devido a novas estratégias de guerra.
            A autora coloca que os espanhóis não viram à questão cultura e simbólica presente nas práticas antropomórficas dos indígenas, através de obras de cronistas a autora coloca que os escritos sobre as praticas estavam ligadas a questões religiosas e morais, mostrando a questão dos grandes pecados que estavam cometendo, e que no reino de granada encontravam-se grandes ‘carniceiros’.
            A antropofagia não era algo desconhecido na Europa, em épocas de crises econômicas, se alimentarem de carne humana foi uma solução encontrada, porém, não tem como comparar as duas realidades, pois na Europa, as falas sobre esse assunto era obstruída por uma sociedade de alteridade em relação aos indígenas. Assim a antropofagia no reino de Granada era algo que segundo o autor se viu baseada em confrontos militares e uma presença exacerbada de espanhóis.
            A necessidade dos espanhóis de mão de obra acarretou em aprisionamento dessas aldeias que praticavam a antropofagia, com base nas determinações da coroa, embora essas práticas não fossem realizadas por todas as sociedades indígenas essa concepção foi alastradas pelos espanhóis para todas as sociedades, mesmo as que não se rebelarão e nem se alimentavam de carne humana, isso parte da ideia dos espanhóis de indígenas desorganizados e 'selvagens'.
            A colonização espanhola na América foi e ainda é tema de grande discussão historiográfica, principalmente para pensar as relações entre espanhóis e indígenas, deixando de lado a dicotomia de vilão e herói. para o autor, a colonização se deu por meio da violência e negociação, pois, os indígenas não conheciam o estrutura burocrática e hierarquizada do trabalho e as relações de poder, pois, em várias tribos o Cacique era permanente, em outras temporário, e ele não tinha tanta interversão nas relações sociais.
            A chicha  era um alimento bastante tomado pelos indígenas, muitos autores como Enciso colocam que essa bebia sustentava os indígenas para trabalhar o dia inteiro sem a necessidade de outra refeição. A chicha era uma vinculação ao trabalho, as festas e as celebrações indígenas, e fazia parte essencial nas relações sociais nos mesmos aspectos pensados anteriormente, a preparação, conteúdo e consumo. Para o autor   "Como celebración, la chicha era bebida en fiestas, en las cuales se cantaba, bailaba, compartía y peleaba. " (SALDARRIAGA, 2009, p.20)
            A estigmação dos indígenas como viciados e embriagados em bebidas se vincula a necessidade de alguns setores em exercer um poder sobre o trabalho indígena, como podemos observar nessa passagem, "Para ellos, las fiestas en que se consumía chicha eran momentos de caos, en los cuales se cometían incestos, idolatrías, asesinatos, canibalismo, y se perdía el respeto a Dios". (SALDARRIAGA, 2009, p.21)
            A alimentação indígena não era homogênea, nem as formas de preparo, uma das críticas feitas aos olhos espanhóis, está ligada a hora de comer e o descuido do preparo, para os espanhóis os 'insetos' eram alimentos 'selvagens' dos indígenas, como a criação de formigas, que representava nutriente presente em algumas sociedades indígenas nas cidade de Velez e Tujna.
            Assim, a discussão em torno da história da alimentação perpassa por várias práticas culturais, sociais e políticas, deixando de lado a dicotomia entre espanhóis e indígenas, mas perceber suas relações ao que concerne a alimentação e suas práticas.


Referências Bibliográficas
HELSTOSKY, Carol. Garlic and Oil: Politics and food in Italy. Oxford y Nueva York, Berg, 2004.
WEIS, Robert G. De panzas y prejuicios: la historia y la comida in revista de história ibero-americana. 2009, vol. 2 núm. 2.
SALDARRIAGA, Gregorio. Comedores de porquerías: control y sanción de laalimentación indígena, desde la óptica españolaenelNuevo Reino de Granada (siglos XVI y XVII).in revista de história ibero-americana. 2009, vol. 2 núm. 2.
NASCIMENTO, Francemilda L. de; SANTELLI, Adriana D.; LIMA, Simone de S. Alimentação e imaginário de conquista: uma breve incisão sobre o relato de viagem de frei Gaspar de Carvajal in Anais do V congresso Brasileiro de Hispanistas – I congresso Internacional da Associação Brasileira de Hispanistas. Minas Gerais, 2008.